A TUCANTE MARIA FERNANDA NOS
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Teatro só faz sentido quando é uma tribuna livre onde se pode discutir até as últimas conseqüências os problemas dos homens.
A arte é uma magia. A gente aprende, mas ninguém ensina.
A técnica é uma coisa mecânica. Disso ninguém duvida. Mas, o artista, por mais sensível que seja, não pode dispensa-la totalmente, até poder usa-la de forma que ninguém perceba que ele tem técnica. Por isso, tem que usar a técnica sem pensar nela, sem senti-la. Aí, então o artista pode se valer da técnica para extravasar seus sentimentos. No sentido de aprender a técnica, a escola pode ser útil.
Existem dezenas de cursos de arte dramática na cidade. Existem milhares de aprendizes de ator nesses cursos. Porém, só um numero reduzido deles assiste aos espetáculos em cartaz. Esses estudantes querem ser artistas, mas não amam a arte. Alegam dificuldades financeiras para não verem as peças. Mentira. Não tem amor ao teatro, por isso nem pensam em sacrificar duas cervejas por um bom espetáculo. O pior de tudo é que seus professores nem sequer sugerem aos alunos que eles devam ver os grandes atores em cena.
Um diretor não pode dar nada ao ator, pois não há o que dar. Um diretor pode instigar um ator a procurar dentro de si mesmo aquilo de que precisa. Por mais que o ator insista em pedir luz ao diretor, ele não pode ir além do limite de incentivador. Mesmo que tente, o diretor não conseguirá dar. Quanto mais tentar, mais o diretor e o ator, vão se embrutecendo, se reduzindo o diretor a um amestrador e o ator a um animal treinado. Nada que vem de fora ajuda um ator a criar seu personagem. Ele tem que nascer dentro do ator, nutrido de coisas que estão dentro dele, ator.
Um dia, fui assistir a um ensaio teatral. Não gosto disso, mas fui. Desse ensaio participavam um velho ator cheio de experiência, um jovem ator cheio de entusiasmo e um diretor cheio de sucessos. O velho ator se valia de truques, caretas, clichês. O jovem ator se esforçava, gritava, espumava, inchava a veia do pescoço, suava. O diretor, de mau-humor, tédio, desprezo pelo trabalho, se limitava a corrigir as marcas. Nenhum deles procurava nada. Por que ensaiavam? não sei.
Encontrei uma bela moça que se formou em arte dramática. Perguntei o que pretendia fazer. Sem constrangimento, respondeu que tinha levado fotos para uma agencia de publicidade e aguardava alguma chamada para participar de comerciais. Será que alguém precisa estudar para isso?
Eu logo reconheço quem está no teatro obedecendo a um imperioso apelo vocacional, ou quem está procurando espaço para passear sua beleza. Aos primeiros, trato como irmãos. É gente que exerce seu oficio como sacerdócio. Merecem todo meu respeito, minha admiração, meu amor. Do segundo tipo de gente, tenho pena. Jamais a arte e a poesia vão brotar do interior de pessoas fracas.
Onde existe autoritarismo, o artista é sufocado. O autoritarismo gera obscurantismo, que favorece o copiador, o bobo da corte e os senhores da estética decorativa.
O critico de arte tem muita importância no sentido de ajudar o artista a conscientizar seu trabalho, a registrar se as propostas foram realizadas, as metas atingidas. Esse é no meu entender, o papel do crítico. Porém quando um indivíduo, só porque tem um espaço em jornal, tv, rádio se nomeia critico e passa a escarrar regra, dizendo sem cerimônia o que o artista devia ou não devia fazer, ou então se limitando a dizer que uma coisa é bonita ou feia, sem saber das explicações, fundamentar suas opiniões, esse indivíduo não passa de um cretino, daninho na medida da tiragem jornal onde escreve ou da audiência do seu programa. Ele deve ser desprezado pelos artistas, já que pelo público são completamente ignorados.
O ator começa a ficar soberano do seu talento, quando ganha consciência de que entra no palco para servir e não ser servido.