Tucantes é o grupo de atores aprendizes do curso Técnico Profissionalizante do TUCA – Teatro da Universidade Católica da PUC-SP, uma escola destinada a formação de atores e artístas criadores.
setembro 30, 2011
O ANJO SEM SORTE - Heiner Muller
Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurrar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do vôo do olhar do sopro. Até que novo ruído de portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu vôo.
"O Anjo do Desespero" - Heiner Muller
Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.
setembro 28, 2011
VLADIMIR SAFATLE - Zero e um
Há tempos, as pesquisas em inteligência artificial procuram criar um computador que tenha a complexidade de um cérebro humano.
Bem, certos setores do debate nacional de ideias conseguiram o inverso: criar cérebros que parecem mimetizar as restrições de um computador. Pois eles são como hardwares que suportam apenas um pensamento binário, onde tudo é organizado a partir de "zero" e "um".
De fato, o Brasil tem de conviver atualmente com debates onde o mundo parece se dividir em dois. Não há nuances, inversões ou possibilidades de autocrítica.
Jean-Paul Sartre costumava dizer que o verdadeiro pensamento pensa contra si mesmo.
Este é, por sinal, um bom ponto de partida para se orientar em discussões: nunca levar a sério alguém incapaz de pensar contra si mesmo, incapaz de problematizar suas próprias certezas devido à redução dos argumentos opostos a reles caricatura.
Afinal, se estamos no reino do pensamento binário, então só posso estar absolutamente certo e o outro, ridiculamente errado. Daí porque a única coisa a fazer é apresentar o outro sob os traços do sarcasmo e da redução irônica. Mostrar que, por trás de seus pretensos argumentos, há apenas desvio moral e sede de poder.
Isso quando a desqualificação não passa pela simples tentativa de infantilizá-lo. Alguns chamam isso de "debate". Eu não chegaria a tanto.
Infelizmente, tal pensamento binário tem cadeira cativa nas discussões políticas.
Se você critica as brutais desigualdades das sociedades capitalistas, insiste no esvaziamento da vida democrática sob os mantos da democracia parlamentar, então está sorrateiramente à procura de reconstruir a União Soviética ou de exportar o modelo da Coreia do Norte para o mundo.
Se você critica os descaminhos da Revolução Cubana ou a incapacidade da esquerda em aumentar a densidade da participação popular nas decisões governamentais, criando, em seu lugar, uma nova burocracia de extração sindical, então você ingenuamente alimenta o flanco da direita.
Esse binarismo só pode se sustentar por meio da crença de que nenhum acontecimento ocorrerá. Tudo o que virá no futuro é a simples repetição do passado. Não há contingência que possa me ensinar algo. Só há acontecimento quando este reforça minhas certezas.
O resto é "fogo-fátuo" e conspiração. É possível encontrar modelos desse raciocínio à esquerda e à direita. No entanto não precisamos de nenhum deles.
Precisamos de um pensamento com a coragem de admitir acontecimentos que nos desorientam. Pois -e este é um dos elementos mais impressionantes da vida- quando fechamos os olhos para tais acontecimentos, eles, de fato, desaparecem.
Bem, certos setores do debate nacional de ideias conseguiram o inverso: criar cérebros que parecem mimetizar as restrições de um computador. Pois eles são como hardwares que suportam apenas um pensamento binário, onde tudo é organizado a partir de "zero" e "um".
De fato, o Brasil tem de conviver atualmente com debates onde o mundo parece se dividir em dois. Não há nuances, inversões ou possibilidades de autocrítica.
Jean-Paul Sartre costumava dizer que o verdadeiro pensamento pensa contra si mesmo.
Este é, por sinal, um bom ponto de partida para se orientar em discussões: nunca levar a sério alguém incapaz de pensar contra si mesmo, incapaz de problematizar suas próprias certezas devido à redução dos argumentos opostos a reles caricatura.
Afinal, se estamos no reino do pensamento binário, então só posso estar absolutamente certo e o outro, ridiculamente errado. Daí porque a única coisa a fazer é apresentar o outro sob os traços do sarcasmo e da redução irônica. Mostrar que, por trás de seus pretensos argumentos, há apenas desvio moral e sede de poder.
Isso quando a desqualificação não passa pela simples tentativa de infantilizá-lo. Alguns chamam isso de "debate". Eu não chegaria a tanto.
Infelizmente, tal pensamento binário tem cadeira cativa nas discussões políticas.
Se você critica as brutais desigualdades das sociedades capitalistas, insiste no esvaziamento da vida democrática sob os mantos da democracia parlamentar, então está sorrateiramente à procura de reconstruir a União Soviética ou de exportar o modelo da Coreia do Norte para o mundo.
Se você critica os descaminhos da Revolução Cubana ou a incapacidade da esquerda em aumentar a densidade da participação popular nas decisões governamentais, criando, em seu lugar, uma nova burocracia de extração sindical, então você ingenuamente alimenta o flanco da direita.
Esse binarismo só pode se sustentar por meio da crença de que nenhum acontecimento ocorrerá. Tudo o que virá no futuro é a simples repetição do passado. Não há contingência que possa me ensinar algo. Só há acontecimento quando este reforça minhas certezas.
O resto é "fogo-fátuo" e conspiração. É possível encontrar modelos desse raciocínio à esquerda e à direita. No entanto não precisamos de nenhum deles.
Precisamos de um pensamento com a coragem de admitir acontecimentos que nos desorientam. Pois -e este é um dos elementos mais impressionantes da vida- quando fechamos os olhos para tais acontecimentos, eles, de fato, desaparecem.
VLADIMIR SAFATLE - Surdos
Há 60 anos morria o maior músico do século 20. Porém ele continua um desconhecido mesmo entre o público letrado das sociedades ocidentais. Seu nome não é estranho, mas suas músicas continuam simplesmente ignoradas.
Pensar atualmente sobre ele é, por isso, uma boa maneira de nos perguntarmos sobre o destino, em nossas sociedades, da própria noção de "experiência estética".
Arnold Schoenberg (1874-1951) foi alguém que viu seu tempo como quem se confronta com um limite. Sua consciência de que a gramática que codifica nossas expressões e que organiza nossos modos de pensar havia se transformado em uma convenção esvaziadora era partilhada por vários artistas de sua época.
É da essência da crítica modernista uma profunda "suspeita pela forma", ou seja, desconfiança de que formas que procuram se passar por naturais são, na verdade, peças de um sistema de imposições violentas. O filósofo francês Jacques Derrida costumava dizer que a pior violência que se pode imaginar é impor ao outro nossa linguagem.
Tudo se passou como se o começo do século 20 tivesse sentido que a linguagem artística tinha se transformado na pior de todas as violências porque era um modo de impor o silêncio àquilo que, no interior de nossa experiência, ainda não encontrara nome.
No entanto, contrariamente àqueles que procuravam denunciar tal imposição por meio do retorno brutal e anárquico ao que parecia recalcado pelo processo civilizatório, Schoenberg encontrou a força de transformar resistência em sistema. Essa era a sua grande peculiaridade: acreditar que a rebeldia não era alérgica ao método e ao rigor.
Abandonar as noções convencionais de harmonia e consonância não implicava pensar sem método e sem regras.
Como quem lembra que a liberdade conquistada não é um antônimo da necessidade.
Assim, Schoenberg criou a imagem de um mundo no qual a expressão mais dilacerada e rebelde não era exterior ao pensamento, mas era a matéria que se deixa moldar pela força organizadora do pensar.
Durante muito tempo, aprendemos que a música era a pátria do descanso do espírito, da imediaticidade do sentir, da espontaneidade pura e melodiosa. Schoenberg nos mostrou uma música na qual o pensar aprendeu a refletir a partir dos sentimentos mais mudos e inomináveis.
Este mundo, infelizmente, ainda não é o nosso. Nosso mundo prefere "esquecer-se" na música, enquanto ele queria uma música que nos fizesse lembrar o que teimamos em querer esquecer.
Quem sabe agora, que aprendemos mais uma vez a desconfiar de nossas formas de vida, a ver as catástrofes que elas produzem, possamos, enfim, começar a ouvir Schoenberg.
Pensar atualmente sobre ele é, por isso, uma boa maneira de nos perguntarmos sobre o destino, em nossas sociedades, da própria noção de "experiência estética".
Arnold Schoenberg (1874-1951) foi alguém que viu seu tempo como quem se confronta com um limite. Sua consciência de que a gramática que codifica nossas expressões e que organiza nossos modos de pensar havia se transformado em uma convenção esvaziadora era partilhada por vários artistas de sua época.
É da essência da crítica modernista uma profunda "suspeita pela forma", ou seja, desconfiança de que formas que procuram se passar por naturais são, na verdade, peças de um sistema de imposições violentas. O filósofo francês Jacques Derrida costumava dizer que a pior violência que se pode imaginar é impor ao outro nossa linguagem.
Tudo se passou como se o começo do século 20 tivesse sentido que a linguagem artística tinha se transformado na pior de todas as violências porque era um modo de impor o silêncio àquilo que, no interior de nossa experiência, ainda não encontrara nome.
No entanto, contrariamente àqueles que procuravam denunciar tal imposição por meio do retorno brutal e anárquico ao que parecia recalcado pelo processo civilizatório, Schoenberg encontrou a força de transformar resistência em sistema. Essa era a sua grande peculiaridade: acreditar que a rebeldia não era alérgica ao método e ao rigor.
Abandonar as noções convencionais de harmonia e consonância não implicava pensar sem método e sem regras.
Como quem lembra que a liberdade conquistada não é um antônimo da necessidade.
Assim, Schoenberg criou a imagem de um mundo no qual a expressão mais dilacerada e rebelde não era exterior ao pensamento, mas era a matéria que se deixa moldar pela força organizadora do pensar.
Durante muito tempo, aprendemos que a música era a pátria do descanso do espírito, da imediaticidade do sentir, da espontaneidade pura e melodiosa. Schoenberg nos mostrou uma música na qual o pensar aprendeu a refletir a partir dos sentimentos mais mudos e inomináveis.
Este mundo, infelizmente, ainda não é o nosso. Nosso mundo prefere "esquecer-se" na música, enquanto ele queria uma música que nos fizesse lembrar o que teimamos em querer esquecer.
Quem sabe agora, que aprendemos mais uma vez a desconfiar de nossas formas de vida, a ver as catástrofes que elas produzem, possamos, enfim, começar a ouvir Schoenberg.
setembro 14, 2011
Há algo de podre no reino da Dinamarca.
Por quê encenar (este texto)?
Por que teatro? Arte?
Ser ou não ser?
Após dois anos de curso, pensando nos comos e porquês da existência (a artística, especialmente), viemos encerrar este período de experiências com Hamlet Máquina, de Heiner Muller.
Escrito em 1977, o texto aborda questões que em um primeiro momento podem parecer específicas, encerrando-se naquele contexto histórico. A peça vem freneticamente fragmentada, ressuscitando os mortos, já que somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado1. E através deste jogo de exumações, transita na existência, permeando o homem: suas questões individuais (micropolítica) e suas reverberações (macropolítica)2 , a irrefutável condição tão precária do humano.
Algo de podre que fede e inquieta a alma, nos move, faz querer entrar em cena para comunicar, comungar. A mesmice apática do conformismo convencional irrompe nossos corpos pelo torpor, que então se manifesta artisticamente. Por que a história se repete? A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras” (...) Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram?3 .
Mais uma vez a primavera, o afloramento de ideias, sentimentos, inconformismos, a vontade de ser.
1 BENJAMIM, Walter. Sobre o conceito de história.
2 ROLNIKY, Suely. A que vem este arquivo. - texto que acompanha o box das entrevistas feitas sobre Ligya Clarck]
3 BENJAMIM, Walter. Sobre o conceito de história.
Por que teatro? Arte?
Ser ou não ser?
Após dois anos de curso, pensando nos comos e porquês da existência (a artística, especialmente), viemos encerrar este período de experiências com Hamlet Máquina, de Heiner Muller.
Escrito em 1977, o texto aborda questões que em um primeiro momento podem parecer específicas, encerrando-se naquele contexto histórico. A peça vem freneticamente fragmentada, ressuscitando os mortos, já que somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado1. E através deste jogo de exumações, transita na existência, permeando o homem: suas questões individuais (micropolítica) e suas reverberações (macropolítica)2 , a irrefutável condição tão precária do humano.
Algo de podre que fede e inquieta a alma, nos move, faz querer entrar em cena para comunicar, comungar. A mesmice apática do conformismo convencional irrompe nossos corpos pelo torpor, que então se manifesta artisticamente. Por que a história se repete? A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras” (...) Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram?3 .
Mais uma vez a primavera, o afloramento de ideias, sentimentos, inconformismos, a vontade de ser.
1 BENJAMIM, Walter. Sobre o conceito de história.
2 ROLNIKY, Suely. A que vem este arquivo. - texto que acompanha o box das entrevistas feitas sobre Ligya Clarck]
3 BENJAMIM, Walter. Sobre o conceito de história.
setembro 07, 2011
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