Confesso que não entendo muito bem: situação de opressão – fator subjetivo.
Quero dizer que as cenas iniciam-se num ponto no qual nasceu determinada situação. Não importa determinar como se chegou a ele. Existe uma situação de opressão e as pessoas tem de se comportar. Trata-se quase sempre de uma situação na qual uma determinada atitude, que nós percebemos como positiva, torna-se suicida. Mas não podemos exigir de um ser humano, uma sociedade não pode exigir de um ser humano, que cometa suicídio. Este seria o apelo moral e ele não leva a nada. Mas posso dar-lhe um exemplo (…): por ocasião da apresentaço em Gênova, houve um debate após a peça no qual falou um senhor de idade e ele disse: “Eu sou judeu, eu estive num campo de concentração”. (…) Ver o espetáculo tinha sido aterrador porque tudo voltou à sua memória. Pela primeira vez tinha ficado claro para ele que por mero acaso estivera do outro lado. Não havia mérito em ser judeu. E não havia mérito, seuqer moral, em ter sido prisioneiro. Poderia ter estado do outro lado. Este é um efeito que eu julgo certo ou desejável.
Não houve crítica ou não existiu o perigo que se dissesse que não é uma peça positiva?
(…) esta é a antiga briga entre Friedrich Wolf e Brecht. (…) Wolf achava que Mãe Coragem deveria renegar a guerra no final. E dizer isso em cena, que a guerra é algo ruim. E Brecht dizia que não era tão importante que Mãe Coragem o reconhecesse no final. Mais importante, para ele, era que o espectador o reconhecesse. Nessas avaliações ou categorizações de peças, a partir de critérios como positivo/negativo, que partem do conteúdo, o fator de Wirkung (eficácia) é posto entre parênteses. Dessa forma, quem é posto entre parênteses é o público. Uma peça não nasce no palco, não acontece apenas no palco, mas entre o palco e a platéia.
Isso significa que a visão positiva está com o espectador?
Sim. E se não estiver aí, não é culpa minha.
(…)
Fala-se, por exemplo, eu o li em algum lugar, de Heiner Müller como crítico da teoria e da prática da peça didática de Brecht.
(…) O certo é o seguinte: a teoria da peça didática de Brecht partiu do princípio de que haverá um tempo em que o teatro não será mais constituído pela separação entre público e atores, espectadores e atores. Isso significa a superação da divisão de trabalhoEsta é uma utopia comunista. E todo o resto são etapas, passagens. Está claro que julgo isto certo, mas, e isso não tem mais a ver com a teoria da peça didática, eu acho que deve haver uma relação contraditória, uma relação de conflito entre o palco e a platéia. Porque eu acho que é monótono quando lá embaixo existe apenas um público que concorda. E também não leva a nada quando lá embaixo está sentado um público que apenas discorda. A diferença talvez esteja no fato de que, para Brecht, ainda se tratava de Aufkärung (esclarecimento) no teatro. Eu acho que isto acabou, pois isso agora é assumido (ou deveria ser assumido) por outra mídia. E o teatro não pode mais assumir a função de aufklären (esclarecer). No teatro trata-se agora, ao menos para mim, de envolver as pessoas em processos, torná-las participantes. (…) Para que as pessoas se perguntem: “Como eu teria me comportado naquela situação?” E para que atinem com o fato de que também são fascistas em potencial, quando se afigura uma situação como essa. Isso eu julgo positivo, útil.
(...)
Como deve ser, na sua opinião, o teatro numa sociedade socialista?
(…) eu acredito, tão modesto quanto isso possa soar, que a principal função política da arte hoje é mobilizar a fantasia. Brecht formulava da seguinte forma: dar ao espectador, no teatro, a possibilidade de criar imagens opostas ou acontecimentos opostos. Quando um determinado acontecimento é mostrado ou quando o espectador ouve um diálogo, este deve acontecer de tal forma que o espectador possa imaginar um outro diálogo que teria sido possível ou desejável.
(…)
Certa vez, você escreveu que a arte se legitima através da novidade. Isso significa que ela é parasitária ao ser descrita com as categorias de determinada estética. O que significa isso?
(…) Perguntaram a Ulanowa o que ela queria dizer com determinada dança. E ela disse: “Se eu pudesse dizer isso de outra forma, não teria trabalhado duramente durante quatro meses nessa dança”. E acredito que isso seja um problema na compreensão da arte. Parte-se do pressuposto de que uma peça de teatro pode ser descrita adequadamente através da prosa ou que umpoema pode ser descrito adequadamente através de análise (…) É o que penso... Acredito que a partir desse equívoco surgiram no passado muitas compreensões erradas sobre obras de arte. Existe um amplo campo de jogo... Ou seja, uma obra de arte tem efeito diferente em cada pessoa. E quando pretendemos criar um consenso falso, isso se dá às custas da arte.
(…)
O que mais me chamou a atenção foi a palavra fragmentação. Parece ter um papel importante para você. Não contar uma história do começo até o fim, mas...
O conceito nasceu de uma polêmica e por isso é uma hiperformulação. (…) A realidade é mostrada de forma que, no final, tudo está bem e o conflito todo é solucionado no palco, as perguntas são respondidas no palco, em lugar de conforntar a platéia com elas. O público é poupado do trabalho, ao se iludi-lo com o fato de que a coisa tem um início e um final claros. E não fica aberto para o efeito. É um lance artístico que não pode ser transformado em evangelho. Não se pode escrever apenas fragmentos. Isso não é possível. Mas é preciso reagir às histórias que encontraram sua conclusão no palco.
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